Durante algum tempo, a disputa entre os medicamentos baseados em GLP-1 pareceu caber em uma única pergunta: qual deles faz emagrecer mais?
Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound ultrapassaram as fronteiras dos consultórios e dos relatórios financeiros. Viraram assunto nas redes sociais, nas conversas cotidianas e nas manchetes. Nesse primeiro momento, o percentual médio de perda de peso funcionava quase como um placar.
Mas essa pergunta começa a envelhecer.
O próximo capítulo do mercado cardiometabólico não será decidido apenas pela balança. Conveniência, capacidade produtiva, acesso, proteção cardiovascular, preservação da função física e custo do tratamento estão ganhando importância. É justamente nessa mudança de critérios que os chamados second movers, empresas e produtos que chegam depois dos pioneiros, enxergam uma oportunidade.
O boom consolidou duas grandes líderes. De um lado, a Novo Nordisk, com a semaglutida. Do outro, a Eli Lilly, com a tirzepatida. Ainda assim, a competição já não pode ser explicada como um duopólio simples.
Novas doses, formulações orais, combinações terapêuticas e moléculas com múltiplos mecanismos estão deslocando a discussão. Para quem acompanha o setor, a pergunta deixou de ser apenas quem lidera em eficácia bruta. Agora, importa entender onde a concorrência pode construir vantagens clínicas, industriais e econômicas ao longo da próxima década.
O comprimido pode mudar mais do que a experiência do paciente
Os medicamentos que impulsionaram o mercado são, em sua maioria, peptídeos administrados por injeção. Produzi-los exige processos biotecnológicos relativamente complexos, além de dispositivos de aplicação e estruturas específicas de distribuição.
Isso não significa que todos os injetáveis dependam das mesmas condições logísticas, nem que um comprimido seja automaticamente barato. Significa apenas que uma pequena molécula oral pode ampliar as possibilidades de fabricação e distribuição.
É nesse contexto que o orforglipron, da Eli Lilly, ganhou relevância.
No estudo de Fase 3 ATTAIN-1, realizado com mais de 3 mil adultos com obesidade ou sobrepeso e sem diabetes, o medicamento oral produziu reduções importantes de peso ao longo de 72 semanas. Em abril de 2026, a FDA aprovou o produto nos Estados Unidos, sob a marca Foundayo, para o controle crônico do peso em adultos com obesidade ou com sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade.
Um dos diferenciais práticos é a possibilidade de tomar o comprimido com ou sem alimentos. Isso elimina a rotina de jejum exigida por algumas formulações orais peptídicas.
A novidade, porém, vai além da comodidade.
O Foundayo coloca à prova uma tese industrial importante: a de que uma pequena molécula oral pode ser produzida com maior flexibilidade, alcançar mais pacientes e reduzir o custo total de fornecimento.
Essa hipótese ainda precisa ser comprovada comercialmente. Aprovação regulatória não garante preço baixo, cobertura ampla pelos sistemas de saúde ou capacidade produtiva suficiente. O que mudou é que a discussão saiu do pipeline e chegou ao mercado real.
Benefícios além da perda de peso fortalecem a proposta de valor
Uma das transformações mais importantes do setor ocorreu fora do placar de emagrecimento.
O estudo SELECT acompanhou 17.604 adultos com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes. Entre os participantes que receberam semaglutida 2,4 mg, os eventos cardiovasculares graves ocorreram em 6,5%, comparados a 8% no grupo placebo. Isso correspondeu a uma redução relativa de 20% no risco de morte cardiovascular, infarto não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal, durante um acompanhamento médio de 39,8 meses.
Em março de 2024, esse resultado levou a FDA a ampliar a indicação do Wegovy para a redução do risco de eventos cardiovasculares graves em adultos elegíveis.
Essa evidência muda a conversa com seguradoras, governos e gestores de saúde. Uma terapia que evita infartos, acidentes vasculares cerebrais ou mortes cardiovasculares oferece um valor clínico diferente daquele medido apenas por quilos perdidos.
Ainda assim, demonstrar benefício não resolve automaticamente a questão do reembolso.
A cobertura também depende do preço, da relação entre custo e benefício, dos critérios de elegibilidade e do impacto financeiro de tratar uma população potencialmente enorme.
A ampliação das indicações reforça essa mesma lógica. Em dezembro de 2024, a FDA aprovou o Zepbound para o tratamento da apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade, em conjunto com alimentação de menor conteúdo calórico e atividade física.
Na doença renal, o estudo FLOW mostrou que a semaglutida reduziu em 24% o risco relativo de um desfecho composto envolvendo progressão da doença renal, insuficiência renal e morte por causas renais ou cardiovasculares. A população estudada, porém, era formada por pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. Portanto, os resultados não devem ser generalizados automaticamente para todas as pessoas com doença renal crônica.
Cada nova indicação sustentada por desfechos clinicamente relevantes fortalece o argumento de valor. Mas uma vantagem duradoura em reembolso só surge quando a evidência clínica é acompanhada por uma equação econômica que os sistemas de saúde consigam sustentar.
A qualidade do emagrecimento abre uma nova frente competitiva
Existe ainda uma oportunidade menos evidente.
A perda de peso promovida pelas terapias baseadas em GLP-1 envolve principalmente gordura, mas também pode incluir redução de massa magra. Isso merece atenção, especialmente em idosos ou pessoas com maior risco de fragilidade.
É importante fazer uma distinção. Massa magra não é sinônimo de músculo funcional. Da mesma forma, sua redução não significa automaticamente sarcopenia, condição clínica associada à perda de massa muscular, força e desempenho físico.
Mesmo assim, preservar força, mobilidade e função durante o emagrecimento é uma questão concreta. Uma pessoa pode perder muitos quilos e, ainda assim, terminar o tratamento com uma composição corporal ou uma capacidade funcional menos favorável do que o percentual na balança sugere.
Por isso, um dos próximos diferenciais competitivos pode não ser apenas quem faz emagrecer mais, mas quem proporciona uma perda de peso com melhor composição corporal e menor impacto funcional.
A manutenção também entra nessa conta. Estudos mostram que a interrupção da semaglutida ou da tirzepatida costuma ser acompanhada por recuperação substancial do peso perdido. Isso coloca tolerabilidade, adesão, duração do tratamento e custo de longo prazo no centro da estratégia.
O teto de eficácia continua subindo
Embora o mercado esteja se tornando multidimensional, a corrida por maior eficácia não terminou.
A retatrutida, da Eli Lilly, atua simultaneamente nos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon. Em maio de 2026, a companhia divulgou resultados do estudo de Fase 3 TRIUMPH-1. Na dose de 12 mg, os participantes apresentaram redução média de 28,3% do peso corporal em 80 semanas, de acordo com o estimando de eficácia.
O resultado reforça o potencial dos agonistas triplos. Ainda assim, a retatrutida permanecia investigacional e sem aprovação regulatória na data desta análise.
A Novo Nordisk, por sua vez, avançou com o CagriSema, combinação de cagrilintida e semaglutida.
No estudo REDEFINE 1, o tratamento produziu redução média de peso de 22,7% em 68 semanas na análise que pressupõe adesão ao tratamento. Quando a análise incorporou interrupções e outras ocorrências observadas durante o estudo, a redução ficou em 20,4%.
A diferença entre esses números oferece uma lição importante. Resultados apresentados em manchetes nem sempre são diretamente comparáveis. O percentual depende da população estudada, da duração do ensaio e, principalmente, da forma estatística usada para lidar com abandono, interrupção ou troca de tratamento.
Até mesmo a semaglutida continua evoluindo. A dose injetável de 7,2 mg do Wegovy recebeu aprovação nos Estados Unidos em 2026, ampliando as opções dentro da própria plataforma.
O cenário, portanto, está longe de uma desaceleração tranquila. Eficácia, formulação, posologia e novas indicações estão avançando ao mesmo tempo.
O que muda para investidores, empresas e sistemas de saúde
Para o investidor, a tese de mercado deixou de depender de uma única variável.
Agora, é preciso considerar a escala de fabricação, o custo por paciente, a facilidade de uso, a amplitude das indicações, a qualidade das evidências clínicas, a tolerabilidade e a capacidade de manter o tratamento.
Modelar o mercado apenas pelo percentual de perda de peso pode levar a conclusões incompletas. Ignorar a eficácia também seria um erro, já que moléculas como a retatrutida indicam que o limite terapêutico ainda pode avançar.
Para as farmacêuticas que estão fora da liderança, a oportunidade não exige necessariamente superar Novo Nordisk e Eli Lilly em perda média de peso.
A vantagem pode surgir de um comprimido mais simples de produzir, de uma indicação específica, de um perfil de segurança mais favorável, de menor impacto sobre a função muscular ou de uma proposta econômica que facilite a cobertura.
Para os sistemas de saúde, permanece um dilema difícil. Uma classe capaz de reduzir eventos graves em grupos selecionados pode gerar enorme valor clínico. Ao mesmo tempo, tratar milhões de pessoas de forma contínua pode produzir um impacto orçamentário incompatível com uma cobertura irrestrita.
Leitura GennomX
O mercado das terapias baseadas em GLP-1 entrou em uma segunda fase.
A eficácia continua sendo fundamental, mas passou a dividir espaço com custo por paciente tratado, capacidade produtiva, adesão e benefícios que vão além da balança.
O orforglipron aprovado testa a tese de uma terapia oral potencialmente mais escalável. A retatrutida mantém viva a corrida por potência. Estudos como SELECT e FLOW mostram como a comprovação de benefícios cardiovasculares e renais pode ampliar o valor clínico das moléculas.
O ativo mais subestimado talvez não seja aquele que promete a maior perda de peso isoladamente. Pode ser o que consiga combinar eficácia suficiente, produção escalável, tolerabilidade, uso sustentável e uma indicação que os pagadores consigam justificar.
A pergunta decisiva, portanto, já não é apenas quantos quilos a próxima molécula fará perder.
É quais pacientes ela conseguirá alcançar, por quanto tempo manterá o benefício e quem será capaz de pagar a conta.